O Racismo Revelado pela Série Atlanta

Existe um senso comum estabelecido, especialmente no Brasil, que os Estados Unidos da América é a terra das oportunidades e da liberdade, que trata-se de uma nação capaz de garantir aos seus membros a possibilidade de ascensão social, desde que tais indivíduos sejam produtivos e persigam o seu próprio bem estar. A igualdade de tratamento, a mobilidade de classes sociais, o acesso aos meios de produção independentemente das suas origens, entre outros elementos, sempre estiveram presentes no ideário do “sonho norte-americano”.

Quem assistiu a série cinematográfica chamada “Atlanta”, rapidamente entendeu que não é bem assim que as coisas funcionam em terras ianques. Mesmo em se tratando da primeira economia do mundo, mesmo sendo a principal potência militar e política do globo, a sociedade estadunidense não está imune a desigualdade social. A série torna evidente questões seríssimas que são principalmente sensíveis no sul dos EUA, onde o tema racial é um ponto de tensão histórico.

O enredo desenvolve-se na capital da Geórgia, Atlanta, e utiliza o recorte racial como lente para mirar temas cotidianos como o trabalho, sistema de saúde, educação, relação com a polícia, acesso às armas, tráfico de drogas, criminalidade etc. Temas que, em uma sociedade livre, justa e igualitária, não deveriam representar problemas sociais, mas sim virtudes.

Sobre a série, por último, cabe ressaltar que ela foi criada, produzida, dirigida e escrita pelo ator, rapper e comediante Donald Glover, ou como é mais conhecido na cena musical ChildishGambino. Glover é a mente por trás de Atlanta, contudo também é a mente responsável pela música “This is America”, tremendo sucesso no ano de 2018 e que, igualmente, desvenda nuances do racismo nos EUA.

É impressionante perceber que o ponto de vista, artisticamente, manifestado por Glover, principalmente em Atlanta, mas também em This is América, possui uma ampla sustentação teórica-científica. Para comprovar, basta acessar canais acadêmicos acreditados e vasculhar a literatura especializada em “racismo estrutural”. 

No Brasil, um grande expoente deste conceito é o professor, jurista e filósofo paulista Silvio Luiz de Almeida. No livro intitulado “Racismo Estrutural”, o autor debate acerca da estrutura social, política e econômica da sociedade brasileira e como tais constructos adotam um filtro racial para as suas tomadas de decisões.

Outra referência importante no âmbito acadêmico é a filósofa Djamila Ribeiro, especialmente quando ela escreve o livro “Lugar de Fala”. Tal obra aborda a questão do racismo, além de fazer a sua correlação com a questão de gênero.